segunda-feira, 23 de novembro de 2015





Nem tudo está perdido se a gente se recolhe, voltar-se pra o que de menor nos compõe:
a mesma cama, a mesma casa, a mesma vida de sempre, as mesmas pessoas que nos conhecem desde sempre, ainda que superficialmente, o programa preferido, os livros, o pão, com manteiga e o café fresquinho, as pernas, as calçadas, as canções, o perfume das estações, o sol que insiste, a chuva que vem, os sonhos, o sono, o balanço do sono, os calores, os amores, as dores, as flores que ainda encontram espaço pra florescer, o amanhecer, o entardecer, e a noite, na janela, as estrelas que se alternam, os laços que se apertam, por solidão, por medo da contramão, o medo, conhecido, que nos protege do inimigo mais íntimo, o ser que não desiste de ir além, como se além preenchesse os vazios, os ecos, os vácuos, o labirinto do que sinto;
recolher-se do mundo no aconchego das coisas pequenas talvez seja, a única salvação.

(Be lins)






3 comentários:

  1. Um belo texto. Nem todos são aventureiros e o aconchego do conhecido é uma opção íntima de muito valor. Os vazios há que serem preenchidos no próprio espaço, pois onde vamos os carregamos. Bjs.

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  2. Minha querida eu tenho comigo, que carregamos um embornal grande onde nele colocamos todos nossos trens misturados com saudades e lembranças. Num lampejo meto as mãos por ele, revejo e revivo e prossigo na longa jornada.Já que caminhar é preciso. Mas confesso sentir falta do cheiro de jabuticabas maduras agarradas no tronco com medo de cair.
    Beijo de paz na linda semana.

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  3. Frida, permita-me uma ressalva: É a única salvação! Acho que o olhar para dentro nos ajuda a compreender muitas coisas do lado de fora, e este olhar só é possível no silêncio de algum lugar onde nos sentios seguros: o lar. Alguns dizem que podemos carregar o lar dentro de nós para qualquer outro lugar. Não sei se é verdade, mas não consigo.

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