segunda-feira, 20 de outubro de 2014

 Parto de mim...



 "O dia era grande. Daqueles sem agenda. Sem pés apressados. Sem olhos vigiando ponteiros. Acordei com a sensação de que o tempo era outra coisa. E a vida também. Com uma saudade que tinha feições familiares.
(...) A saudade era do ser que me fazia acreditar que eu não era uma turista num planeta estrangeiro nem uma sobrevivente de uma civilização extinta, como tantas vezes sentia. E me ensinava que toda vez que eu achasse que os outros precisavam de legendas para me entender, eu poderia recorrer aos idiomas que o coração entende. Um sorriso. Um olhar. Um abraço.
A saudade era do amor que aquele ser emanava e do qual eu era feita. Da seiva que permeava todo o jardim. Que era o meu corpo, por trás da roupa de gente que eu usava e da qual precisava cuidar com o carinho com que se cuida da roupa do amado, embora raramente eu lembrasse disso. Da porção em mim que era mágica e sábia. Humilde e serena. Que me intuía. Que me ajudava a desenhar o meu caminho. Encontrar o meu acorde. Escrever a minha história.
A saudade, terna e arrebatadora, era daquilo em mim que tinha um compromisso com a vida, ainda que eu fizesse de conta que o havia esquecido e só honrasse os compromissos que o meu coração nunca assumiu. Daquilo que não se importava com os porquês. Que se desprevenia. Que se enamorava. E que se olhasse para o azul do céu mil vezes se emocionava em todas elas, reverenciando o pintor. Que me lembrava de que eu devia saborear a paisagem com os companheiros de viagem, mesmo sem saber aonde o barco me levaria. E de que se chegasse a tormenta, eu não deveria esquecer, na aflição, que eu não era o barco, e, sim, o mar.
Naquele dia acordei com saudade e com medo. Nem mais casulo nem vôo ainda. Sabia que enquanto eu não voltasse a dar a mão àquele ser que me habitava, enquanto eu não voltasse a dançar com ele, continuaria a me sentir longe de casa, separada da minha gente, fora do meu habitat, perambulando, confusa e assustada, no mundo árido e sem cor que desenhei quando larguei a sua mão.
Para fluir comigo, a vida pedia que eu soltasse o medo e me entregasse. Que dissesse sim. Que acreditasse nela. Eu não sabia como fazer, mas sentia, entre as contrações, que ela estava fazendo por mim, através de cada experiência que eu atraía para o meu caminho.
Naquele dia, grande, acordei com a sensação de que o tempo era outra coisa. De que a vida era outra coisa. E eu também."

(Ana Jácomo - Parto de mim)



15 comentários:

  1. Uma bela e significativa imagem associada a um profundo texto da Ana Jácomo... Sem dúvida, amiga, uma bela postagem que nos leva a uma reflexão profunda sobre aquilo que sabemos (e muitas vezes não) sobre nós mesmos.
    Existem dias que eu também acordo " com a sensação de que o tempo era outra coisa. De que a vida era outra coisa. E eu também."
    Que tua semana seja pautada no sorrisos dos anjos, no brilho das estrelas, e na alegria que, certamente, chegará junto das horas dos teus dias.
    Com carinho,
    Helena
    (http://helena.blogs.sapo.pt)

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  2. Nossa Frida, eu adoro os textos da Ana Jácomo, ela parece me entender!!
    Hoje eu acordei assim: achando que o tempo é outra coisa!!

    Beijos e uma semana linda!!^^

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  3. Que belas escolhas, minha amiga! Texto e imagem interagem, levando-nos a refletir sobre os dias assim, que existem em nossas vidas. Boa semana, fica bem!

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  4. ''e uma vez
    que você
    encontrou
    o seu centro,
    você terá
    encontrado
    tanto suas
    raízes
    quanto suas
    asas.”
    Osho

    [saudades de tu]

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  5. Boa tarde, imagem linda associada ao belo texto, a saudade é aquilo que fica, daquilo que não ficou.
    AG
    http://momentosagomes-ag.blogspot.pt/

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  6. Bela imagem e bonito texto, minha querida.

    Saudades... existem sempre-

    Beijinhos. meu bem, e boa semana :)

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  7. Sabemos que é preciso estar de bem conosco para nos relacionarmos e apreciarmos o belo que existe no exterior. Algumas vezes, isso se torna difícil, mas a certeza dessa necessidade é transparente. Bjs.

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  8. Maravilhosa seleção!
    Dizem que o que a gente mais teme, não é o fracasso, e sim o sucesso. Eu acredito nisso, pois fracassar é fácil.
    Mas ter sucesso, entregar-se à vida, dá trabalho...
    Bom dia pra você, Frida.

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  9. Você 'costura' as palavras de modo que é impossível desprender os olhos delas...

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  10. Belíssimo texto que eu adorei saborerar.
    Parabéns.
    Bj.
    Irene Alves

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  11. Parabéns amiga e para Ana Jácomo por belíssimo texto!
    feliz por estar aqui!
    bjs

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  12. Cada vez melhor...
    Aquele beijinho, que o meu regresso à blogosfera está para breve...
    Beijinho
    :))

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  13. Escrevo para ti...Sabes que é para ti...
    Os nomes não têm cor
    São simples diagramas em conflito
    Os nomes são muda sinfonia de sonata em desamor

    Serei um barco vencendo rotas novas
    Aplanarei as rugas de todas as montanhas
    Vai arder novamente este sofrido coração
    Hoje tive vontade de pintar uma oração


    Terno beijo

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