terça-feira, 8 de abril de 2014

Ela gostava de guardar no bolso imenso do casaco amarelo, todas as coisas do mundo.
Guardava cores, o cheiro dos amigos de infância, o vento-bagunça-cabelo, o vento-levanta-vestido, o cheiro de chuva da avó materna, o cheiro de domingo de sol do avô. As previsões catastróficas da melhor amiga virginiana, os beijos que sentiu, o cheiro de cada lugar que viveu, guardou olhos-sorrindo, os conselhos da tia-prima-segunda da vizinha da frente, guardou os que sorriam pra ela, os que foram e prometeram voltar, os que voltaram, os que não...

Um dia encontrou o mar... se olharam, imensos!
Entregou o que tinha.
Tirou o casaco, se desfez do botão colorido e sacudiu devagar pra se despedir de tudo.
Ficou ali, olhando o mar abraçar teus dias sem pressa, fechava e abria os olhos, sentia o vento, respirava fundo, aliviada, todo silêncio do mundo e ela.

Menina que tanto guardou do mundo, agora derramava mar dos olhos.

(L.M)

9 comentários:

  1. Que escrita boa a sua!

    E a foto , além de bonita, ilustra perfeitamente o texto.

    Passe pelo "SÃO", não pelo "são": tenho um mimo para si.

    Beijos, rrs

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  2. Palavras cativantes... escrita intensa. Gostei!

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  3. Que belo! Depois pode guardar tudo de novo, acrescentando mais uma inesquecível emoção. Bjs.

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  4. Então FRIDA,

    aí temos a certeza de que é derramando que guardamos verdadeiramente,afinal quando aspergimos gotas de maresias devolvemos ao mar intenso das nossas vidas,tudo que guardado no mundo continuará dentro de nós.

    Somos o mundo Frida,o ar e o mar, tudo fora,encantamentos perenes que não admitem garrotes,aprisionamentos nem sentimentos ou objetos trancafiados com aquele indesejável cheiro de naftalina da usura e desprendimento.

    Guardar não enriquece a vida se escorrem os dias apenas esperando outros, na esperança de que vinte e quatro horas depois - sempre depois - é que seremos todo,único,plural...

    Entregar é receber a felicidade antes,contida!

    Um abração carioca.

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  5. Belíssimos

    os rios que desaguam nos mares

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  6. Que bela partilha!
    Quando criança lá nas Minas gerais eu carregava num embornal todas as minhas coisas do coração.
    Mas quando vi o mar eu me encantei e deixei que a brisa oxidasse meu embornal e pelo mar me apaixonei.
    Grato por tão lindo poema.
    Abraços.
    Beijo de paz.

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