segunda-feira, 27 de janeiro de 2014


Estava vendo as luzinhas atraves da janela... de onde estava parecia-me que toda a cidade tinha virado luzinhas... elas piscavam... estava um pouco tonta, talvez por causa do vinho... ou talvez por causa das luzes ou pq estava cansada da noite mal dormida...
Por um minuto me perdi da conversa, percebi isso quando ele disse que era uma companhia desinteressante por eu nao estar prestando a menor atençao ao que falava... senti meu rosto queimando, adivinhei que deveria estar vermelha, a timidez se fez presente, abaixei os olhos...titubieei... respondi um "nao é isso"quase inaudivel, e me senti pior quando ele me perguntou o que eu havia falado... resolvi  lutar contra a timidez, olhei-o nos olhos e lhe respondi que apenas estava um pouco distraida, e que ele me desculpasse...  ele riu, pareceu nao ligar...
Olhei tudo em volta... pensei que algumas horas antes ja tinha me arrependido de ter aceito o convite para jantar, que deveria ter transferido a responsabilidade para uma outra pessoa ... estava cansada, ainda melancolica e sem vontade de tocar no assunto que me levou ate ali, embora fosse um assunto tao importante que poderia salvar  vidas...  me senti culpada...
Nao sabia o que falar, estava completamente sem lugar na frente dele, ele notou e começou a rir... um riso tao solto e largo que me contagiou...
Comecei a me sentir bem, a me sentir mais confortavel... creio que para me deixar mais a vontade ainda, ele disse ter uma missao, de me devolver o sorriso de criança, ja que vinha me observando por um tempo, e que eu conversava, resolvia problemas, me relacionava com as pessoas, mas sempre com uma tristeza velada...
Me surpreendeu o que ele disse, o fato dele ter reparado em mim... passei a observa-lo, coisa que nao tinha feito ate entao... por tras da taça de vinho comecei a analisa-lo, calculei que ele deveria estar beirando os quarenta anos, talvez um pouco mais, os olhos por tras dos oculos, tinham uma cor mel, o nariz... era afilado,a boca...estava sempre sorrindo, os cabelos eram levemente cacheados nas pontas...escuros, nao o achei bonito, mas dele emanava uma energia boa... energia de pessoas que sao do bem... pensei que deveria ser por causa de sua profissao...
Ele continuava falando, tive a impressao que deve ter falado o tempo todo enquanto eu o observava... de repente ele perguntou se poderia arrumar uma mecha que havia se soltado do meu penteado, fiquei sem graça, mas antes que eu pudesse responder ele ja estava passando a mao nos meus cabelos... e... fiquei surpresa... quando ele tirou a mao e entre seus dedos estava uma moeda... fiquei olhando aquilo e me lembrei de todos os magicos que povoaram minha infancia, e que ainda pequenina queria ser "magica", e quando adolescente obriguei minha mae a comprar kits e mais kits de magica... me senti aquela menininha fascinada diante dos truques... e veio mais truques... uma carta de baralho que surgiu de algum lugar  embaixo da mesa e por fim uma pedra toda colorida que apareceu dentro de um guardanapo... aquilo era tao surreal, que comecei a rir, e entao ele me disse que tinha cumprido sua missao...
Eu lhe disse que ele deveria era fazer magicas mas  para salvar vidas... ele me garantiu que fazia isso, que quando nao podia curar o corpo, tentatava curar o espirito... tive que concordar... ele se importava com as pessoas... isso eu ja tinha percebido...
Eu tinha ficado bem... mas nao haviamos conversado sobre o que deveriamos... mas me dei conta que nao queria mesmo mais falar sobre nada...  estava me sentido leve...
Olhei o relogio... estava na hora de ir embora, pessoas me esperavam...
Me despedi... ele perguntou se meu carro estava longe... caminhamos ate ele, a noite estava quente, mas agradavel... o cheiro da flor "dama da noite" tomava conta de tudo, por um momento me senti tonta de novo, embriagada pelo cheiro forte... Chegamos... agradeci pelo jantar e entrei no carro... ja começando a sair ele pediu que eu abrisse o vidro ... se debruçou e me perguntou : O dia... como é dividido o dia?... respondi prontamente que é dividido em horas... ele riu... e ja se virando para ir embora falou que eu havia errado na resposta... que o dia nao se divide em horas... mas em emoçoes...
-Em emoçoes minha cara senhora, ele é dividido em emoçoes ...  repetiu mais uma vez...
E eu fiquei parada... olhado-o se afastar lentamente...   intrigada...

5 comentários:

  1. E deixaste escapá-lo?

    Um Ele com sentires cheios de vida.

    beijos

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  2. Putz! sem palavras...ou talvez muitas...que universo particular que belo clima proposto neste brilhante texto!!!

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  3. INSPIRADOR este texto...é ou foi real? deixei-me envolver para o fim...risos.

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  4. «...me garantiu que fazia isso, que quando nao podia curar o corpo, tentatava curar o espírito...» INTERESSANTÍSSIMA esta Frase.

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