sábado, 20 de abril de 2013




Por anos e anos a fio sonhei que estava caindo. Queda livre de um lugar indefinido, um vôo que não era vôo e que não tinha fim. Depois, por outros anos, sonhei com tsunamis. Enormes ondas que vinham do nada, enquanto olhávamos abismados, eu e quem mais estivesse comigo no sonho, aquela coisa gigantesca vindo em nossa direção. Assim como a queda, a onda vinha mas não chegava nunca. Agonia sem fim. O que será que Freud diria desses sonhos recorrentes? Nos últimos tempos não lembro dos meus sonhos. Sei que sonho porquê dizem que todo mundo quando dorme sonha, mas quase nunca lembro. Um mergulho em zonas desconhecidas que não me deixam lembrança. Sensação de estar caindo, medo do que virá, e o vazio.
Em certos momentos acho viver muito parecido com sonhar sonhos estranhos, uma coisa difícil, contrário de tudo que meu lado cor de rosa crê. Não sei me relacionar com as pessoas direito, pessoas são minha queda, meu medo, meu vazio. Não fui talhada para as convivências.Ou fui, e não entendi nada. Não que eu não goste de gente, o que ocorre é que eu não entendo nada de gente. Quanto mais o tempo passa, maior em mim é essa convicção. Tenho evitado as pessoas. Conviver me magoa. Estar perto da imprevisibilidade das reações humanas me faz lembrar do sonho em que caio, em que temo, em que saio vazia e perdida no meio de coisa nenhuma. Parece amargo? De fato, é um pouco amargo. Olhar-se de frente nem sempre é uma surpresa de fazer alvorecer o coração. Tem vez que vira breu. Sei que de um lado existem as sete ou oito maravilhas do existir, mas não consigo ignorar o outro, a escuridão do existir. E no meio disso uma fina estrada de pedras por onde ando, equilibrando-me em passos incertos, em olhos cansados que precisam ficar abertos mas teimam no conforto de fechados ficarem. Viver de verdade e de perto às pessoas é o vinho mais saboroso degustado em goles gulosos e garrafas largadas pelo caminho em meio a risos, festa, e algo mais que não compreendo.
Sou fraca pra bebidas. Sou fraca pra gente. Sou fraca pra viver.

(Be Lins)



9 comentários:

  1. A vida vivida com poesia tem outra magia. Gostei muito do blog e já marquei lugar.
    Vivi
    http://esquecimedeviver.blogspot.pt/

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  2. Quando se permite que o medo se torne uma vestimenta constante, o arriscar perde seu lugar. E também se vão as alegrias que muitas surpresas poderiam oferecer. Creio que ninguém é assim, tão fraco. Simplesmente, não exercita seu poder.
    É melancólico o texto. Não praticar a convivência
    é fazer aumentar os vazios e a insegurança. Bjs.

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  3. Querida amiga

    Penso que
    a tristeza
    é necessária
    para entendermos
    a felicidade.
    Mas diante da brevidade
    da vida
    a felicidade não é
    um direito
    mas um dever.


    Acorda a alegria em ti,
    como quem acorda uma pessoa muito amada...

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  4. A fraqueza so ser-se pode tornar-se uma força poderosa.
    Basta estarmos atentos, observadores.

    Beijinho

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  5. Poderia ter escrito as primeiras seis frases, quase da mesma forma. Sensação estranha.
    Adorei ler o texto e a forma realista e crítica de observar.
    cumprimentos

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  6. Sabe aquele abraço bem gostoso??
    Pois é esse que vim te deixar.
    Aqui deixo meu imenso carinho
    por você.
    Que seja nossa amizade
    a mais infinito que houver.
    Um Dia lindo e abençoado.
    Beijos no coração.
    Carinhos na Alma.
    Evanir..

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  7. Acho que todos temos sonhos recorrentes. No meu caso, são dois: voando... ou preso em um elevador que sobe sem parar. O primeiro é agradabilíssimo; o segundo, confesso, nem tanto. O texto é muito bonito, ótima escolha! Boa semana.

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  8. Vim ver se havia postagem nova (rss). Desejo-lhe um lindo fim de semana. Bjs.

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  9. Um vazio que muitas vezes se faz presente e tende a crescer,cria-se esta perda de confiança este deixa-se passar.
    Vida nao tem este passar,urge que se permita ser e fazer feliz,criar e recriar as relações.
    Um belo texto poetico das angustias que tanto nos abraçam nesta vida.
    Abraços com carinho minha amiga.
    Bjo.

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