segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Quem sou eu quando fecho os olhos? Quais vestes trago eu aos encontros? Quais os sonhos de infância são os frutos de hoje? Quais máscaras uso quando não é mais carnaval? O que sou quando me sobram apenas palavras? Quem sou eu quando me entrego? Quando não estou? Porque ando me sabendo pelas ausências, e também pelos silêncios. Na minha coleção de avessos, qualquer coisa que eu diga abriga o incerto, o contrário, o relativo, o inverossímil; e o meu não-dizer é absoluto, certo, inconteste, inapelável. Quando não digo, concedo aos meus pés o direito às possibilidades. Por isso, quando algo me perguntam respondo apenas como reação. Eu só falo por rebeldia, como uma força que me empurra e me arrasta quando não quero tomar postura nem posição. Falo por necessidade quando nada quero dizer. Falar me limita, encolhe e prende, e eu sou imenso, gigante e vasto. Sou fruto de todo o meu passado que não consigo demonstrar, todo meu sentir que me é impossível traduzir, todo um infinito que me é descabido explicar. Com as palavras que tenho, do oceano só a gota posso apontar. Melhor então viver nos bastidores das entrelinhas, nas sutilezas dos detalhes, nas cores do invisível, na intensidade do simples, na importância do sereno, numa entressafra de possíveis amores e sementes. Sou plural, coerência e loucura na mesma cura, cegueira e altura num mesmo par de olhos que sabe ser a vida incógnita, quando não tumulto e multidão. E confuso, vivo sentindo torções na Alma, ansiedade de parto, angústia da morte e do renascer; sintomas de quem não sabe cuidar do próprio jardim e cabe ao tempo cobrar meu florescer. Tornei-me hábil com as letras, quando queria era ser honesto ao dizer que a gente mais ensina aquilo que precisa aprender. Mas é o silêncio quem (me) diz e eu só digo por não saber, por querer me distrair e cobrir meus enganos, os meus vazios todos com palavras. Queria era ser prático com o coração, sabendo melhor minhas cirandas e encantos, milagres, carinhos, paixão ou caminhos que possam me desnudar no espelho da Alma.

 (Guilherme)

Um comentário:

  1. Um belo mergulho neste texto que partilha.
    As interrogações que nos abraçam.
    Como a decifrar enigmas.
    Muito bom.
    Valeu.

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